As desigualdades de gênero nas carreiras acadêmicas da área de Química refletem desafios estruturais presentes nas Ciências Exatas e da Terra. A sub-representação de mulheres cientistas em posições de destaque e liderança evidencia a influência de fatores como gênero, classe social, raça e maternidade, que se interseccionam e impactam o desenvolvimento profissional. A análise da distribuição de oportunidades, como as Bolsas de Produtividade em Pesquisa – PQ do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), revela padrões que contribuem para a manutenção dessas assimetrias e reforçam a necessidade de políticas voltadas à equidade de gênero e outros marcadores sociais no campo científico.
O Painel de Fomento em Ciência, Tecnologia e Inovação, disponibilizado pelo CNPq, permite visualizar como se comportou essa distribuição num período de 10 anos (2014-2023).

Ao analisar a imagem acima, é possível observar que entre 2014 e 2023 as mulheres representaram cerca de 30% dos beneficiários das Bolsas PQ, enquanto os homens corresponderam a aproximadamente 70%. Essa diferença mantém-se relativamente estável ao longo dos anos, indicando um padrão contínuo de sub-representação feminina no acesso a esse tipo de fomento, que é um dos principais indicadores de reconhecimento e avanço na carreira científica no Brasil.
Observando o quadro pela dimensão região, evidencia-se que a região Sudeste recebe 59,21% das bolsas no período consolidado, muito à frente das demais. Na segunda posição encontra-se a região Sul, com 19,80%, seguida pelo Nordeste (14,85%), Centro-Oeste (4,69%) e Norte (1,46%). A situação ano a ano também não varia consideravelmente, havendo um ligeiro crescimento da região Norte (de 0,93% em 2014 para 1,65% em 2023).
No quesito cor ou raça, as pessoas brancas são a esmagadora maioria dentre os beneficiários (68,96%), seguida das não declaradas (15,05%). Pardas são 12,02%, e pretas (2,32%) encontram-se à frente das amarelas, que representam apenas 1,65% do total. Não existem pessoas indígenas detentoras de bolsa Produtividade na área da química no período analisado. O comportamento dessa distribuição permanece o mesmo ano a ano.

O Painel de Demanda e Atendimento, por sua vez, permite visualizarmos a discrepância entre as solicitações de bolsas de Produtividade em Pesquisa e aquelas que foram contempladas. Esta ferramenta, de acordo com a nota técnica, utiliza dados referentes ao ano de lançamento da chamada (que abrange mais de 12 meses no caso das bolsas PQ) e, portanto, os valores são diferentes daqueles apresentados no Painel de Fomento, o qual disponibiliza as informações efetivamente registradas ano a ano. Mas a diferença de proporção Demanda/Atendimento na distribuição de bolsas no Brasil entre as diversas categorias sociais também evidencia desigualdades de gênero, cor/raça e região, destacando assimetrias que refletem as estruturas históricas da ciência nacional.
Para o período de 2014 a 2023, que lançou 19 chamadas de bolsa PQ/CNPq, pouco mais da metade (51,73%) das bolsas solicitadas na área de Química foram atendidas (2.111 de 4.081 totais). A análise dos dados por Sexo (Imagem 3) indica que homens solicitaram e receberam mais Bolsas PQ do que mulheres. A taxa de aprovação feminina, cerca de 46%, permaneceu abaixo da média geral, evidenciando a sub-representação das mulheres no sistema de fomento científico. A taxa de atendimento masculina é de mais de 54%.


Em relação à análise racial (Imagem 4), vemos que pessoas pretas apresentaram as maiores taxas de atendimento (53,33%), mas ocupam o 4° lugar no ranking de demandas. Assim, apenas 48 indivíduos, de um grupo de 90 solicitantes, obtiveram bolsa PQ no período. Por outro lado, a raça/cor branca, com a 3ª maior taxa de atendimento (52,91%), está em 1° lugar tanto dentre proponentes quanto contemplados, com índices cerca de 30 vezes maiores que os da raça/cor preta. Chama atenção também a baixa representatividade de amarelos e indígenas – estes últimos com nenhuma das 6 propostas atendidas.


A distribuição geográfica das Bolsas PQ (Imagem 5) mostra forte concentração no Sudeste, especialmente no estado de São Paulo, que lidera tanto em número de propostas quanto em taxa de atendimento (59,95%). Na região Sul, o Rio Grande do Sul também se destaca em ambos os quesitos. Embora Alagoas, no Nordeste, apresente a maior porcentagem de propostas atendidas (60,53%), a demanda é uma das menores do país, resultando em apenas 23 indivíduos contemplados. Fenômeno semelhante ocorre em Sergipe, com aprovação de 57,14% e 24 bolsistas. Estados como Piauí, Mato Grosso, Acre, Tocantins e Amapá configuram entre os piores índices, sendo que estes três últimos não registraram nenhuma concessão de bolsa no período. Roraima, por sua vez, não apresentou demanda nessa modalidade. Essa disparidade regional reflete o desequilíbrio histórico da infraestrutura científica brasileira, que apenas recentemente tem se ampliado fora do eixo Sul-Sudeste do país.



A análise da relação Demanda/Atendimento para bolsas PQ de acordo com as categorias sexo, raça/cor e região no Brasil, demonstra desigualdades de fomento à pesquisa que não se encerram na concessão supostamente meritocrática de financiamento. Além da reserva de cotas regionais e a grupos minoritários, são necessárias ações que revertam a baixa demanda apresentada por estes. Para promover uma ciência mais inclusiva e plural, é fundamental implementar políticas públicas que fomentem o desenvolvimento de instituições científicas em regiões pouco institucionalizadas e que incentivem a prática de pesquisa, desde os níveis iniciais, a grupos sociais menos favorecidos e estimulados, como mulheres, negros e indígenas, por exemplo.
Aumentar o acesso e permanência nas universidades e instituir práticas que corroborem a ascensão na carreira, valorizando aspectos culturais e amparando necessidades específicas de diferentes atores sociais pode ser um importante passo nesse sentido. A diversidade de experiências e realidades deve ser considerada como fator potencializante, e não impeditivo, para a formação de profissionais mais competitivos e fortalecedores da produção científica nacional.
“Esse projeto contou com apoio da Diretoria Executiva de Apoio e Permanência Estudantil da UNICAMP.”
Créditos
Levantamento realizado por Ana Caroline dos Santos Ferreira durante a vigência da Bolsa Auxílio Estudo Formação – BAEF/Unicamp (orientadora Karla Bessa), em colaboração com a pesquisadora de pós-doutorado do INCT Caleidoscópio, Lia Gomes P. de Sousa.
A pesquisa está atualmente em aprofundamento pela aluna Ana Caroline dos Santos no âmbito do projeto de Iniciação Científica (Pibic/CNPq) “Profissão versus Maternidade: A Dupla Jornada na Trajetória Acadêmica de Docentes dos Institutos de Física ‘Gleb Wataghin’ (IFGW), de Química (IQ) e de Matemática, Estatística e Computação Científica (IMECC) da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP)”, sob orientação da professora Dra. Karla Bessa (INCT Caleidoscópio / Pagu-Unicamp).
