
Encontro realizado em 27 de novembro em parceria com a ProECC reuniu pesquisadores nacionais e internacionais para um debate interdisciplinar sobre modelos de linguagem e sistemas de IA e suas consequências no ensino, produção de conhecimento e dinâmicas sociais.
A presença cada vez mais constante e acelerada das Large Language Models (LLMs) – popularmente conhecidas como Inteligência Artificial (IA) – no cotidiano e suas implicações éticas, sociais e epistemológicas pautou o Fórum Permanente “Inteligência Artificial, Ciência e Ética – Alternativas para um Futuro Menos Algorítmico”, realizado em 27 de novembro no Centro de Convenções (CDC) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
O evento, organizado pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) Caleidoscópio, a Pró-reitoria de Extensão, Esporte e Cultura (ProEEC) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o Núcleo de Estudos de Gênero Pagu e a Coordenadoria de Centros e Núcleos Interdisciplinares de Pesquisa (COCEN), reuniu pesquisadores de diversas áreas para discutir como a IA têm reconfigurado práticas científicas, estruturas de poder e formas de conhecimento.
A programação, que durou das 09h às 17h, contou com uma conferência de abertura com a pesquisadora inglesa Nessa Keddo, do King’s College London (KCL), e duas mesas temáticas com convidados de distintas instituições e atuações no Brasil. Mesmo com numerosas abordagens e perspectivas, reiterou-se que o avanço científico e tecnológico aporta novas soluções e habilidades, mas também pode reproduzir antigas desigualdades e violências.
Para a professora Karla Bessa, organizadora do evento e vice-coordenadora do INCT Caleidoscópio e do Pagu Unicamp, a interdisciplinaridade, especialmente entre as humanidades e as ciências da computação, é fundamental para compreender os efeitos da IA. Durante a abertura do evento, Bessa ressaltou a herança feminista na crítica à tecnologia: “muito antes de falarmos em IA generativa ou LLMs, feministas já interrogavam as promessas de modernização e denunciavam o mito da neutralidade técnica”.
Raluca Savu, coordenadora da COCEN, destaca que “esse fórum traz à tona aspectos que muitas vezes permanecem à margem das discussões que costumamos ver sobre o tema da IA. Ou seja, suas implicações sobre grupos vulneráveis, os invisíveis, e os que são afetados pela desigualdade de raça e gênero que se reproduz nos sistemas digitais”.
Ética, diversidade e inclusão (EDI) nas indústrias criativas globais

Nessa Keddo e Karla Bessa durante a conferência de abertura (dir. para esq.)
As transformações provocadas pela IA generativa nas indústrias criativas, especialmente na publicidade, no audiovisual, na indústria da música e nas plataformas digitais, foi o tema da conferência proferida por Nessa Keddo, professora associada de Mídia, Diversidade e Tecnologia no KCL, durante a manhã do evento.
Para Keddo, EDI já se tornou um tema de geopolítica, uma vez que a postura anti-inclusão pregada por governos conservadores, como os Estados Unidos, impactam diretamente legislações e dinâmicas sociais em outros países e abrem espaço para que muitas plataformas flexibilizem suas políticas de moderação, facilitando a disseminação e circulação global de discursos de ódio.
Ela observa que a inclusão e a diversidade não são, normalmente, uma prioridade para grandes conglomerados de mídia e destaca que crianças e adolescentes têm sido vítimas e alvos constantes de ataques racistas em comunidades on-line e que isso se manifestou, entre outros contextos, em campanhas publicitárias no Facebook entre 2019 e 2025.
A pesquisadora também compartilhou sua trajetória pessoal, ressaltando como sua origem periférica em Londres e sua vivência como mulher negra influenciaram seu interesse por EDI e o entendimento de que as desigualdades são institucionalizadas nos sistemas educacionais e no mercado de trabalho. Keddo confessa que não foi incentivada a seguir as áreas STEAM (Ciências, Tecnologia, Engenharias e Matemática) e nota que essa experiência se repete em outros países, especialmente entre estudantes de grupos marginalizados.
Ela apresentou o conceito de “Techno custom racism” (ainda sem tradução ao português), que expressa como tecnologias digitais podem intensificar formas de racismo personalizadas, direcionadas e intencionais. O fenômeno envolve o ódio e discriminação dirigidos por usuários das redes; falhas técnicas de detecção e moderação; impactos diretos sobre trabalhadores e comunidades marginalizadas e políticas frágeis de liberdade de expressão que favorecem a manutenção dessas violências.
Durante o debate com os espectadores, Keddo reiterou que, embora sua pesquisa esteja ancorada no Reino Unido e no Norte global, essas questões se ampliam e ressoam para além dessas fronteiras, uma vez que a internet cria um ethos globalizado e interconectado.
Potencialidades e desafios
A primeira mesa teve como tema “Potencialidades e Desafios na interação entre Máquinas, Dados e Humanidades” e reuniu distintas perspectivas sobre o cenário contemporâneo, em especial no contexto universitário.
Denise Carvalho, professora no Instituto de Artes (IA) da Unicamp, defendeu que apenas um olhar atento e que interseccione gênero, raça, classe e outras categorias de opressão, consegue identificar os impactos estruturais produzidos pelos sistemas de IA e como eles refletem desigualdades históricas. Sobre os efeitos da IA na produção artística, em especial as imagens geradas por algoritmos, a pesquisadora apresentou como artistas negros vêm tensionando estereótipos e questionando a noção de autenticidade na arte.
Já o pesquisador Leonardo Tomazeli, da Diretoria Executiva de Tecnologia da Informação e Comunicação (DETIC – Unicamp), apresentou a atuação da Universidade diantes dos desafios impostos pelas novas tecnologias e destacou a criação do Centro de Referência em Tecnologias de IA (CREVIA), vinculado à DETIC, que visa apoiar a comunidade universitária em quatro frentes principais: capacitação crítica em IA, apoio à governança e à regulação, oferta de infraestrutura e serviços tecnológicos seguros e assessoramento no uso da IA em processos institucionais. Tomazeli reitera que é preciso refletir sobre como as tecnologias impactam a produção científica, autoria e o próprio sentido de pesquisa.
Tarcísio Silva, professor da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC), apresentou uma pesquisa sobre o uso da IA em iniciativas ligadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, na qual observa que os ODS que mais são atendidos são aqueles que dizem respeito a mudanças climáticas e sustentabilidade. Em contrapartida, os que tendem a ser menos contemplados são aqueles ligados à erradicação da pobreza, igualdade de gênero, justiça e redução das desigualdades.
A IA na educação e na pesquisa

Patrícia Yokoya, Bruno Fantinatti, Mirlene Simões, Sandra Ávila e Almir Almas (esq. para dir.)
A segunda e última mesa do Fórum, intitulada “Educação e Pesquisa – Perspectivas em andamento em relação às LLMs”, contou com a presença de docentes da rede básica e do ensino superior, que discutiram sobre experiências empíricas com o uso da IA na educação.
O professor Almir Almas, da Escola de Comunicação (ECA USP), falou sobre como a exploração artística com IA envolve criar novos territórios estéticos e quebrar códigos tradicionais. Como exemplos de projetos com IA, cita a reconstrução histórica e de ambientes por modelos generativos. Para Almas, é preciso “pensar num homem atual que tem ferramentas que são meio que um ciborgue na mão. Isso muda a percepção de mundo”.
O impacto da tecnologia na Escola Estadual Barão Geraldo de Rezende, em Campinas, foi tema da palestra de Bruno Cesar Fantinatti, professor de Física e assistente de tecnologia da informação (TI) na Escola, e Patrícia Yokoya, professora de línguas e literatura na instituição. Fantinatti reforçou a necessidade de uma educação voltada ao uso das tecnologias: “quando digo “conscientização”, não é ensinar a apertar botões. É ensinar para quê a tecnologia serve, como deve ser usada, quais limites existem, quais responsabilidades surgem e qual é o papel dela na aprendizagem.”
A professora Sandra Ávila, do Instituto de Computação (IC) da Unicamp, criticou a ideia de neutralidade da IA, destacando que modelos de aprendizado de máquina são funções matemáticas orientadas por decisões humanas, carregando vieses desde a definição dos problemas até as métricas de avaliação. A partir de sua experiência no ensino e na pesquisa, ela apontou a falta de questionamento ético e social na formação em IA, o que a levou a criar a disciplina Feminismo de Dados, voltada a discutir poder, raça, gênero e responsabilidade algorítmica. Sandra apresentou o desenvolvimento do modelo Capivara, focado em baixo custo computacional, menor impacto ambiental e valorização de contextos locais.
A professora Karla Bessa destacou que o Fórum se conecta aos esforços em torno da implementação da Incubadora Social Feminista, que será sediada na Unicamp e terá ênfase em projetos de IA, reforçando o papel da Universidade como espaço estratégico para pensar criticamente os rumos da tecnologia. Segundo ela, o evento buscou promover reflexões sobre os cenários, desafios e possibilidades do uso da IA no contexto universitário: “trata-se de uma conversa ainda inicial, mas fundamental, voltada à formação de quadros, à construção de referenciais éticos e ao fortalecimento de abordagens feministas”.
Fóruns Permanentes Unicamp
Os Fóruns Permanentes constituem um programa da Pró-reitoria de Extensão, Esporte e Cultura (ProEEC) da Unicamp que propõe apresentar temas atuais e relevantes para a sociedade a partir de debates e discussões com especialistas de distintos campos de saberes e atuação, órgãos, associações e outros grupos. O objetivo é ampliar as trocas entre os debates acadêmicos e a sociedade. A submissão de propostas para o Calendário dos Fóruns Permanentes de 2026 estão abertas.

