
A 30ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP30), ocorrida em Belém (PA), em novembro de 2025, colocou no debate a centralidade da justiça racial na governança climática e a urgência no enfrentamento do racismo ambiental, isto é, dos impactos desproporcionais sobre populações negras, indígenas e demais comunidades tradicionais.
Um dos resultados foi a assinatura da Declaração de Belém de Combate ao Racismo Ambiental por 19 chefes de Estado e de Governo na Cúpula de Líderes da COP30. A Declaração aponta direcionamentos aos países, e representa um avanço como compromisso coletivo com o enfrentamento às desigualdades, às mudanças climáticas e ao racismo em todas as suas expressões.
Alinhada e atenta a esse debate, Ruth Helena Cristo Almeida, professora da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), apresentou algumas reflexões sobre a sua pesquisa “Racismo ambiental e mulheres rurais no contexto da COP 30”, durante o 3º Seminário do Observatório Sul-Sudeste do INCT Caleidoscópio, realizado em 18 de agosto de 2025.
O estudo analisa como desigualdades raciais, sociais e territoriais se expressam nos conflitos socioambientais da região amazônica, chamando a atenção para as relações de gênero, o território e o trabalho das mulheres no contexto rural da Amazônia.
Veja a apresentação completa no canal do Youtube do INCT Caleidoscópio.
Racismo ambiental no contexto amazônico
O conceito de racismo ambiental é central para o enquadramento da discussão sobre mudança climática, especialmente para compreender a distribuição desigual dos riscos e dos danos ambientais a nível global.
Ao propor uma leitura crítica sobre os processos chamados “de desenvolvimento” e de exploração dos territórios amazônicos, a pesquisadora aborda não apenas os aspectos produtivos do meio rural, mas também as dimensões sociais e políticas que estruturam a vida nos territórios. Segundo Ruth Almeida, comunidades tradicionais, populações indígenas, quilombolas, ribeirinhas e urbanas periféricas são impactadas de forma desproporcional pelos grandes projetos e pela ausência de políticas públicas efetivas.
Nesse contexto, a pesquisadora ainda chama a atenção para os processos de desterritorialização e despossessão que atravessam essas comunidades no avanço das políticas.
“Pensando, ainda, dentro dessas populações, as mulheres vão sentir de forma diferente, a juventude vai ser sentir de forma diferente, e as crianças vão sentir os impactos de forma diferente. Tudo isso marcado pela questão da racialidade, que perpassa o avanço desses projetos”, afirmou.
A Amazônia é vista como território central, não apenas simbólico, nas disputas em torno da agenda climática global. Assim, a realização da COP 30 no Pará colocou a região no centro do debate climático global, mas também expôs contradições históricas. Segundo a pesquisadora, eventos internacionais sobre clima e sustentabilidade frequentemente ignoram as vozes das populações que vivem nos territórios mais afetados pelas mudanças climáticas e pela degradação ambiental.
Assim, o racismo ambiental se manifesta tanto na invisibilização dessas populações nos espaços de decisão quanto na forma como políticas de desenvolvimento e conservação são implementadas sem considerar as realidades locais. Para Almeida, enfrentar esse cenário exige reconhecer as desigualdades estruturais que atravessam raça, gênero, território e classe social na Amazônia.
Mulheres na Amazônia rural: gênero, território e trabalho no campo amazônico
A presença das mulheres na Amazônia rural e sua atuação nos territórios do campo são objeto da pesquisa da professora Ruth Almeida. Segundo ela, as mulheres exercem papel central na dinâmica rural da região, atuando na produção agrícola, na organização comunitária, na manutenção da vida familiar e na transmissão de saberes.
Apesar dessa presença significativa, suas contribuições seguem, em grande parte, invisibilizadas ou desvalorizadas nos discursos hegemônicos e nas políticas voltadas ao desenvolvimento rural.
Ao trazer essas trajetórias para o centro da análise, articulando racismo ambiental e COP 30, a pesquisadora aponta para a complexidade do debate e dos desafios a serem enfrentados. A justiça socioambiental só é possível a partir da inclusão efetiva dos sujeitos amazônicos nas discussões sobre o futuro climático do planeta. Ao mesmo tempo, é preciso pensar gênero e ruralidades na construção de políticas e práticas mais sensíveis às especificidades regionais e às desigualdades de gênero, raça, classe.
Sobre a pesquisadora
Ruth Helena Cristo Almeida é professora da UFRA, lotada no Instituto Socioambiental e dos Recursos Hídricos (ISARH) e docente colaboradora do Programa de Pós-graduação Diversidade Socioambiental (PPGDS/MPEG). Possui experiência nas áreas de Sociologia, atuando em temáticas como: relações de gênero, agricultura familiar, relação empresas e comunidades, unidades de conservação e conflitos sociais.
Doutora em Ciências Agrárias pela Universidade Federal Rural da Amazônia – UFRA (2013), com tese voltada para as relações entre empresas de Biocosméticos e Comunidades Rurais. Mestra em Sociologia Geral pela Universidade Federal do Pará – UFPA (2005). Bacharel e Licenciada em Ciências Sociais pela UFPA (2002).
Foi Coordenadora Adjunta do Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica da UFRA (PARFOR/UFRA), além de Coordenadora do curso de Licenciatura em Pedagogia do PARFOR/UFRA. Coordenou a Rede Nacional de Formação Continuada (RENAFOR/UFRA), instalou e coordenou o Núcleo de Inovação e Transferência Tecnológica (NITT/UFRA).
Compõe a Comissão de Acompanhamento e Avaliação do contrato de Gestão celebrado entre o Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Lidera o Grupo de Pesquisa em Relações de Gênero e Ruralidades Amazônicas (GERAR/CNPq).
