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Coordenação S-SE Divulgação científica Observatório Caleidoscópio Trajetória

Germaine Tillion: resistência e engajamento na antropologia do século XX

Engajada na luta anticolonial e na resistência ao nazismo, a antropóloga francesa foi tema da fala da professora Miriam Pillar Grossi (UFSC) no 3º Seminário do Observatório Caleidoscópio.

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Arte de divulgação do Seminário do Observatório Caleidoscópio. Elaboração: Morgani Guzzo.

Antropóloga, etnóloga e escritora pioneira, a trajetória de Germaine Tillion (1907-2008) extrapola fronteiras entre ciência, política e ativismo. Em contextos marcados por graves violações aos direitos humanos, ela transformou sua prática científica e militância pessoal em instrumento de denúncia e intervenção ética.  

Referência também para os estudos de gênero e ainda pouco conhecida no Brasil, a francesa é tema dos estudos da pesquisadora Miriam Pillar Grossi, professora emérita da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que apresentou parte de sua pesquisa, intitulada “Germaine Tillion: cientista engajada ‘avant la lettre'”, no 3º Seminário do Observatório Caleidoscópio, realizado no dia 23 de setembro de 2025.

Desde a década 1990, a professora Miriam Grossi investiga a vida e a obra da antropóloga francesa. Sua trajetória inicia-se na Argélia e é marcada também pela resistência ao nazismo. Presa e enviada ao campo de concentração de Ravensbrück, Tillion foi a primeira pessoa a escrever um livro sobre um campo nazista e produziu análises e discussões sobre colonialismo, repressão e autoritarismo.

Segundo Grossi, Germaine Tillion antecipou debates contemporâneos ao articular antropologia, ética e ação política. “Ela foi uma cientista engajada em um momento em que o engajamento não se colocava ainda de forma tão presente”. 

Assista ao vídeo completo da apresentação da professora Miriam Grossi no canal do Youtube do INCT Caleidoscópio.

Da etnografia na Argélia à resistência ao nazismo

A trajetória de vida de Germaine Tillion é elemento marcante de suas formulações teóricas. Nascida em 1907, em Allègre, na França, Germaine era filha de intelectuais e herdeiros da nobreza francesa que, após perder a fortuna familiar durante a 1ª Guerra Mundial, mudam-se para Paris. Nos anos 1920, ingressa no Instituto de Etnologia de Paris, onde foi aluna de Marcel Mauss, renomado sociólogo e antropólogo francês. 

Nos anos 1930, financiada pelo Instituto Real de Antropologia da Grã-Bretanha e Irlanda, a antropóloga viaja para a Argélia, na região de Aurès, para realizar uma pesquisa junto ao povo Chaoui. Na ocasião, centra sua reflexão nas relações sociais e observa como a dominação patriarcal é reproduzida nas colônias. 

De acordo com  Miriam Grossi, é apenas em 1966 que ela publica algo sobre este período. O livro Le harem et les cousins (O Harém e os Primos, também traduzido como República dos primos), relata como tradição de casamento entre primos e a segregação feminina moldam uma cultura patriarcal que limita e inferioriza as mulheres.

A vida de Germaine Tillion também  foi profundamente impactada com a 2ª Guerra Mundial. Ao retornar à Paris nos anos 1940, o país havia sido tomado pelos nazistas. É quando ela ingressa na rede de resistência (mais tarde nomeada de Resistência do Museu do Homem) e vai, aos poucos, assumindo responsabilidades. Com o assassinato dos líderes em 1942, Tillion assume a liderança e é presa no mesmo ano.   

Em 1943, é transferida para o campo de concentração feminino de Ravensbrück, onde permanece até 1945. No campo, realizou uma etnografia da violência, interpretando o sistema concentracionário como uma engrenagem econômica e política de expropriação e extermínio. Escreveu clandestinamente Le Verfügbar aux Enfers, opereta que retrata com humor e ironia o cotidiano no campo, servindo tanto como denúncia dos absurdos nazistas como alívio psicológico para as prisioneiras. 

“Germaine Tillion desempenhou, dentro do campo de concentração, um papel muito importante para sua sobrevivência e das suas companheiras, pois, como antropóloga, começa a fazer uma etnografia e a entender qual é aquele absurdo que é a exploração e o massacre vivenciado”, destacou Miriam Grossi durante a sua apresentação.

Do testemunho sobre Ravensbrück à denúncia do colonialismo francês

Após a 2ª Guerra, Tillion se empenhou em coletar depoimentos e testemunhos sobre Ravensbrück e a publicar suas primeiras análises sistemáticas do funcionamento dos campos nazistas. A obra Ravensbrück, publicada em três edições, se tornou um documento fundamental para a historiografia do nazismo até os dias atuais. 

Nos anos 1950, ela retornou à Argélia. Em meio aos conflitos pela independência, ela debruça seus estudos sobre a guerra e os crimes de tortura. Segundo Grossi, ao observar como o sistema colonial promoveu um empobrecimento extremo da população, Tillion ampliou a noção de “sistema concentracionário” para além do nazismo, aproximando-a das discussões sobre colonialismo, repressão e autoritarismo. Nesse momento, a antropóloga passou a denunciar a violência do próprio Estado francês e participou de iniciativas internacionais voltadas à responsabilização por violações de direitos humanos. 

Em 1958, Tillion tornou-se uma das poucas mulheres a integrar o corpo docente da Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais, centro de referência na área de humanidades da França. Seu engajamento também se expressou na defesa dos direitos das mulheres, impulsionado por suas pesquisas de campo no Aurès, na atuação como consultora da UNESCO, na defesa de imigrantes na França e em posicionamentos críticos diante de conflitos contemporâneos, como o embate entre Israel e Palestina. Germaine Tillion faleceu aos 100 anos, em 2008.

Dimensões teóricas e metodológicas nos engajamentos da antropóloga

Para a pesquisadora Miriam Grossi, do ponto de vista teórico e metodológico, sua contribuição articula cinco dimensões centrais: a itinerância como prática de pesquisa comprometida; a valorização da subjetividade como parte constitutiva do conhecimento; o engajamento como princípio ético da produção científica; a consolidação de uma antropologia da violência e da resistência; e, por fim, uma dimensão textual, estética e pedagógica que reconhece a escrita e a forma narrativa como instrumentos de memória, formação e intervenção pública.

Ao revisitar a pesquisa de Tillion, Miriam evidenciou a relevância de Germaine Tillion no âmbito metodológico, pelo aprofundamento da etnografia e pela articulação entre campo e contexto histórico; ético, pela defesa da responsabilidade social do pesquisador diante de injustiças e violências; e político, pela crítica às estruturas coloniais e aos sistemas de opressão.

Assim, mais do que uma etnógrafa das sociedades norte-africanas, Tillion consolidou uma antropologia capaz de dialogar com os dilemas do seu tempo e do nosso. Seu percurso demonstra que ciência e compromisso social não são esferas opostas, mas dimensões complementares de uma prática intelectual rigorosa.

Sobre a pesquisadora

Miriam Pillar Grossi é professora emérita da UFSC e atua no Programa de Pós-graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas. É Doutora em Anthropologie Sociale et Culturelle – Université de Paris V (1988), com estágios pós-doutorais no Laboratoire d’Anthropologie Sociale do Collège de France (1996/1998), University of California-Berkeley (2009 e 2012) e École des Hautes Etudes en Sciences Sociales (2009/2010). Mestra em Anthropologie Sociale Et Culturelle pela Université Paris Descartes, Paris V  (França, 1983). Graduada em Ciências Sociais pela UFRGS (1981). 

É Coordenadora Editorial dos Cadernos de Gênero e Diversidade (2024-2026). Vice-presidente eleita para a gestão 2023-2027 da IUAES (International Union of Anthropological and Ethnological Sciences) e Coordenadora da IUAES Commission of Global Feminisms and Queer Politics. 

Foi presidente da ANPOCS – Associação Nacional de Pó-graduação e Pesquisa em Ciências Sociais, presidente da ABA – Associação Brasileira de Antropologia, diretora da Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência – SBPC, representante da Área de Antropologia na CAPES, representante da Grande área de Humanas no CTC da CAPES e Membro do Conselho Deliberativo (CD) do CNPq como representante da comunidade científica.

Em 1991, fundou, na UFSC, o NIGS – Núcleo de Identidades de Gênero e Subjetividades, que desenvolve pesquisas em redes nacionais e internacionais. Também fundou a Rede de Antropólogas Feministas Latino-americanas, a Comissão de Políticas Científicas da ALA, e a IUAES Commission of Global Feminisms and Queer Politics.

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