
A Inteligência Artificial não é neutra e acende debates sobre quem constrói, e sob quais vieses, as tecnologias que permeiam nosso cotidiano e prometem moldar nossos futuros. Isso foi o ponto de partida de um encontro com quatro alunas do ensino médio da Escola Estadual Barão Geraldo de Rezende (EEBGR), em Campinas, que discutiram como desigualdades de gênero e raça podem ser reproduzidas nos sistemas tecnológicos. O encontro aconteceu no dia 09 de abril e foi conduzido por Mirlene Simões, pós-doutoranda no INCT Caleidoscópio, e Karla Bessa, coordenadora do Observatório Caleidoscópio Sul/Sudeste.
Uma reportagem sobre feminismo e ética na IA, publicada no Jornal da Unicamp, serviu como fio condutor para que as estudantes identificassem exemplos de vieses algorítmicos e refletissem sobre a ausência de diversidade no desenvolvimento tecnológico. O texto apresenta a disciplina “Feminismo de Dados”, inédita na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ofertada pela professora Sandra Ávila, do Instituto de Computação (IC).
As alunas discutiram conceitos como ética, representatividade e poder, conectando o conteúdo do texto às suas vivências. “O encontro foi interessante porque foi a primeira vez que vi um jornal mostrando que uma mulher está estudando as tecnologias”, declara Suelma da Tarcisia Mario Miguel, estudante do 2º ano do ensino médio e uma das bolsistas do programa.
O estudo de tecnologia não é novo para as estudantes. “Temos aula de robótica uma vez por semana, mas aprendemos a fazer programas simples”, comenta Jenyfer Mendonça da Silva, também aluna do 2º ano. “É um assunto que eu já conhecia e estou me aprofundando mais, foi bom conhecer mais a fundo”, complementa. Além das estudantes e das mediadoras, também esteve presente no encontro a jornalista científica do Observatório, Letícia Moreira.
Ética e IA no currículo acadêmico
A primeira edição da disciplina ocorreu em 2025 e foi inspirada no livro Data Feminism (2020). No curso, Ávila propõe questionamentos provocadores sobre como as distorções da IA afetam tanto mulheres como outros grupos marginalizados e a importância de se questionar as matrizes de dominação. A professora também estimula os alunos a refletir sobre soluções para transformar essas desigualdades.
Em 2025, ela participou do Fórum Permanente “Inteligência Artificial, Ciência e Ética – Alternativas para um Futuro Menos Algorítmico”, organizado pelo INCT Caleidoscópio em parceria com a Pró-reitoria de Extensão, Esporte e Cultura (ProEEC) da Unicamp, o Núcleo de Estudos de Gênero Pagu e a Coordenadoria de Centros e Núcleos Interdisciplinares de Pesquisa (COCEN). No evento, a pesquisadora criticou a neutralidade da IA destacou que falta questionamento ético e social na formação profissional, o que guiou a proposta da disciplina.
Iniciação Científica Jr. na Incubadora Social Feminista da Unicamp

Cinco alunas da EEBGR participam do programa de bolsas de Iniciação Científica Júnior, com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), realizado por meio do Observatório Caleidoscópio Sul/Sudeste.
A atividade integra a fase inicial da Incubadora Social Feminista de IA, em processo de implementação na Unicamp desde 2025, que visa a inserção de meninas nas áreas STEAM (Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática) a partir da formação e atração de jovens para carreiras tecnológicas, com ênfase em epistemologias feministas e justiça climática.
“A proposta da Coordenação Sul/Sudeste do INCT Caleidoscópio é pensar a Incubadora como um espaço de debates sobre a Inteligência Artificial, os mecanismos pelos quais ela tem sido desenvolvida e sob quais vieses. Para isso, a ideia é que esse espaço dentro da Unicamp seja aberto a todas as mulheres da comunidade, para que seja também um polo de formação crítica, mas também de programação e criação na área de IA”, comenta Mirlene Simões, pós-doc responsável pelo acompanhamento das bolsistas.
Dentre os produtos sociais previstos pela Incubadora, está o desenvolvimento de chatbots feministas, plataformas online e kits pedagógicos voltados ao enfrentamento de violências de gênero e raça. A iniciativa se fundamenta nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU: ODS 4 (Educação de Qualidade), ODS 5 (Igualdade de Gênero) e ODS 13 (Ação Contra a Mudança Global do Clima).
