A Filosofia se constitui como um campo historicamente masculino e a área mais branca das Humanidades. No Paraná, a disparidade é alarmante, com apenas 17 mulheres no quadro de 100 professores efetivos em universidades estaduais, sendo todas autodeclaradas brancas. É o que revela um estudo inédito publicado na Guairacá Revista de Filosofia (v. 41, 2025), conduzido pelas professoras Roseli Machado, Luciana Klanovicz, pesquisadora do INCT Caleidoscópio Sul/Sudeste, e Patrícia Riffel de Almeida, da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro).
A pesquisa mapeou a representação e atuação feminina na disciplina de Filosofia em 7 universidades estaduais – a Unicentro, a Universidade Estadual de Londrina (UEL), de Maringá (UEM), de Ponta Grossa (UEPG), do Oeste do Paraná (Unioeste), do Norte do Paraná (UENP) e a Universidade Estadual do Paraná (Unespar). Os dados revelam ainda que, embora minoria, as mulheres possuem uma titulação elevada e apresentaram uma média anual de produção científica superior à dos homens.
Com metodologias quantitativas e qualitativas, as pesquisadoras buscaram observar a evolução da representatividade feminina no Magistério Superior paranaense e expor alguns dilemas que persistem na Filosofia. Segundo as autoras, a redução das desigualdades passa necessariamente pelas mãos que ocupam esses espaços, em sua maioria masculinas, que seguem desinteressadas na mudança.
A desigualdade em números
O Paraná é o segundo estado com o maior número de universidades públicas estaduais do país, atrás apenas de São Paulo, e possui 5.458 docentes efetivos, sendo 2.806 (51,4%) homens e 2.652 (48,6%) mulheres, segundo dados do INEP (2022) reportados na pesquisa. Quanto ao perfil racial desses docentes, mais de 93%, entre homens e mulheres, se autodeclaram de pele branca. Nas universidades estudadas, pardos e pretos representam somente 3,7% e 1,2% do corpo docente, respectivamente.
Apesar de uma proximidade na quantidade de homens e mulheres na docência, reveladora da crescente presença feminina nesses espaços, ainda há evidentes disparidades nas áreas de atuação: Linguística, Letras e Artes são os campos de maior presença feminina, enquanto nas Engenharias e Ciências Exatas e da Terra predominam os homens.
No que se refere à área da Filosofia, o abismo é ainda maior. Dos 17% de docentes mulheres, 100% se declaram de pele branca. Das 7 instituições analisadas, a Unicentro e a UEPG não possuem nenhuma mulher no grupo de professores efetivos. A UEL e a UENP foram as universidades que apresentaram a maior quantidade no grupo observado, com 29% e 25% de mulheres no quadro, respectivamente.

No levantamento sobre a prática das orientações, observou-se que, na graduação, as mulheres orientam mais que os homens, em uma tendência “alinhada a padrões institucionais e culturais que historicamente associam as mulheres a funções educacionais e de cuidado”, afirmam as autoras. Já na pós-graduação, onde o prestígio e o financiamento são maiores, a média de orientação feminina cai drasticamente em relação à masculina.
Essa lógica se reflete também na produção bibliográfica. Ao passo que os homens produzem mais artigos, que são a métrica principal do produtivismo acadêmico atualmente, as mulheres superam na publicação de capítulos de livros e na organização de obras coletivas, que, embora menos prestigiados, requerem mais articulação e curadoria.
Entre barreiras e resistências
A partir desse cenário geral, as pesquisadoras discutem as raízes dos papéis sociais e sua perpetuação no contexto das universidades paranaenses. Em continuidade ao longo processo de feminização da atividade docente desde o ensino básico, elas demonstram a persistência de um padrão de atuação que, quando comparado aos pares masculinos, se concentra na formação inicial dos estudantes e enfrenta maiores dificuldades para ocupar espaços de prestígio.
“As assimetrias observadas podem estar associadas tanto às raízes históricas que marcaram a exclusão feminina do campo filosófico, quanto às dinâmicas institucionais contemporâneas que limitam sua plena participação, especialmente em espaços de prestígio acadêmico, como a pós-graduação e as publicações em periódicos de circulação internacional”, declaram.
Essa disparidade afeta diretamente a inserção feminina em corpos docentes e o acesso a bolsas de estudos e de produtividade. No que se refere às aprovações em concursos, as mulheres também saem prejudicadas ao não corresponderem a uma seletividade produtivista concentrada na publicação de artigos científicos e no número de orientações na pós-graduação.
Ações como a manutenção de antigos preconceitos sexistas e o desestímulo à ocupação feminina em espaços masculinizados são apontados pelas autoras como cruciais para a perpetuação das desigualdades.
Análises e caminhos para a mudança
Dados institucionais sobre o quadro docente das universidades estaduais ao longo de uma década, entre 2010 e 2020, serviram de fonte para o estudo. As autoras destacam ainda que o sistema utilizado atua de forma binária, não traduzindo a real diversidade das expressões de gênero, o que não diminui o impacto do quadro observado.
O estudo se apoia também em bibliografias clássicas que discutiram a exclusão histórica das mulheres na ciência e na Filosofia e em estudos recentes que têm evidenciado as causas e impactos dos padrões desiguais notados nas carreiras acadêmicas da área. A partir da análise crítica e do uso transversal dos dados, o levantamento evidenciou aspectos indispensáveis para o entendimento do lugar de ação das mulheres nas instituições, sobretudo ao comparar as atividades das docentes filósofas às de seus pares masculinos.
Ainda que atingir a paridade nas instituições paranaenses seja um desafio da atualidade, as pesquisadoras evidenciam também os avanços e transformações que, a passos lentos, demonstram a presença e o protagonismo feminino nas universidades. A criação de três Grupos de Trabalho voltados para temáticas de gênero na Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia (ANPOF), sendo um deles dedicado às interseções entre raça, gênero e classe, e o surgimento da Rede Brasileira de Mulheres Filósofas foram apontados como importantes indicadores de divulgação.
Para o futuro, as autoras apontam algumas ações que podem potencializar o combate à desigualdade de gênero no âmbito universitário, como a inclusão de mulheres nas bibliografias das disciplinas de graduação em Filosofia e a organização de debates e eventos em torno da temática. A adoção do índice do INEP como parâmetro para a distribuição de bolsas e a adoção da proporção entre homens e mulheres como índice de avaliação de PPGs pela CAPES também foram medidas indicadas.
Em meio a exclusões histórica e sistemicamente apoiadas, trabalhos que, como este, reconhecem e denunciam problemas, podem ser pontos de partida para pensar as ações já vigentes e, sobretudo, construir novas possibilidades de enfrentamento, permanência e inserção.
Sobre as autoras
Luciana Klanovicz – Docente do Departamento de História da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro). Graduada em História pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e doutora em História pela UFSC. Coordena o Centro Interdisciplinar de Estudos de Gênero (Cieg-Unicentro) e atua como orientadora e docente nos Programas de Pós-Graduação em História da Universidade do Estado de Santa Catarina (PPGH-Udesc) e em Desenvolvimento Comunitário (PPGDC-Unicentro). É pesquisadora no INCT Caleidoscópio, na nucleação Sul/Sudeste.
Patrícia Riffel de Almeida – Professora colaboradora no Departamento de Filosofia da Unicentro. Graduada e mestra em Filosofia pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Doutora em Filosofia pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (2021).
Roseli Machado – Docente efetiva do curso de Administração da Unicentro. Graduada em Administração pela Universidade de São Paulo (USP). Doutora pelo Programa Interdisciplinar em Desenvolvimento Comunitário da Unicentro. em experiência na área de Administração, com ênfase em Gestão Pública, Políticas Públicas, Gênero e Mercado de Trabalho. É vice-coordenadora do Centro Interdisciplinar de Estudos de Gênero (Cieg/Unicentro). (Fonte: Currículo Lattes)
