
Em 2017, Maíra Rodrigues da Silva entrou para a história da Unicamp como a primeira mestra quilombola da instituição. Neste ano, em 2026, ela alcançou mais um título: agora é também Doutora – pelo Instituto de Geociências (IG-Unicamp), mesmo local em que realizou o mestrado. Formada em Ciências Biológicas pela Universidade Paulista-Unip (2013), em Campinas e com bolsa do Prouni – Programa Universidade Para Todos, do Ministério da Educação (MEC), ainda concluiu especialização em Agroecologia e Educação no Campo pela Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri-Unicamp) em 2015.
Sua área de pesquisa é em política e gestão de recursos naturais, estudando especialmente a contaminação ambiental em áreas afetadas por elementos tóxicos como chumbo, arsênio e zinco. No mestrado, sob orientação de Alfredo Borges de Campos e Sara Adrián López de Andrade, discorreu sobre o efeito fitorremediador – purificação por meio de plantas – do “feijão de porco” em solos do Vale do Ribeira (SP). Já no doutorado, orientada por Jefferson de Lima Picanço, avaliou os contaminantes da bacia do Rio Paraopeba, em Minas Gerais. Antes disso, ela também atuou como extensionista da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares (ITCP-Unicamp) de 2010 a 2014, como estagiária do Instituto Agronômico de Campinas-IAC em 2013, como professora da rede pública do Estado de São Paulo de 2013 a 2019 e da pós-graduação da Faculdade São Marcos-FASAMAR de 2018 a 2019.
Proveniente da comunidade Ivaporunduva – formada por descendentes de escravizados que trabalhavam no garimpo de ouro – em Eldorado-SP, no Vale do Ribeira, Maíra busca também aplicar seus conhecimentos a serviço das comunidades tradicionais. Ao mesmo tempo, com o arcabouço cultural de suas origens, enriquece a própria universidade ao integrar os saberes quilombolas à academia. Sua atuação na pesquisa científica significa mais do que a assimilação de integrantes historicamente excluídos dos centros institucionalizados de produção do conhecimento: ela proporciona uma verdadeira transformação epistemológica, trazendo novas percepções, questionamentos e formas de produzir o conhecimento nessas instituições.
Caminhos trilhados
Na ITCP, ainda durante a graduação, Maíra Rodrigues trabalhou com cooperativas da cadeia de resíduos sólidos, construção civil e agricultura familiar, coordenando projeto de extensão voltado à agroecologia e economia solidária. No estágio realizado no IAC, analisou amostras de terras agrícolas de sua própria região de origem – que se destaca pela agricultura orgânica e o legado africano de preservação da natureza –, atingida pelos efeitos da mineração das grandes corporações. Na Feagri, sua especialização versou sobre “A contribuição da agroecologia para o fortalecimento da Agricultura Quilombola”.
Após comprovar a contaminação por chumbo que afetava as áreas de cultivo do Vale do Ribeira, foi lançando mão de um adubo verde já utilizado pelos agricultores da região, e em íntimo diálogo com o cotidiano da população local, que Maíra defendeu o uso do “feijão de porco” como forma de remediar o solo, em seu trabalho de mestrado.
No doutorado, sua pesquisa ajudou a evidenciar o impacto do rompimento da barragem de Brumadinho-MG, em 2019, causado à biodiversidade e aos povos ribeirinhos do Paraopeba. O monitoramento realizado por ela demonstrou que os efeitos do despejo de rejeito de mineração no ambiente, ainda que de baixa toxicidade imediata sobre determinados organismos aquáticos, podem trazer graves consequências ecológicas e sociais a longo prazo. O acúmulo de metais pesados, por exemplo, afeta o desenvolvimento do banco de sementes do solo e a regeneração do ecossistema circundante, oferecendo riscos à vegetação, à atividade agrícola e à saúde pública, conforme sustentado em artigo recente.

A via de mão dupla entre universidade e comunidade começou desde cedo em sua trajetória, por meio das atividades de extensão: Maíra frequentou o cursinho oferecido pelo Programa de Comunidades Quilombolas (PCQ-Unicamp) antes de ingressar na faculdade e, posteriormente, seguiu apoiando novos grupos em busca do acesso à educação e demais direitos. Em 2024, por exemplo, coordenou o aboratório de Resiliência Comunitária no Quilombo do Nhunguara, Vale do Ribeira, que trabalhou temas como segurança alimentar, dentre outros. O projeto, de abordagem participativa e pluriepistêmica, foi reconhecido pela Comissão de Extensão do Instituto de Geociências da Unicamp.
Sua agenda de pesquisa e de luta conecta questões sobre saberes ancestrais e contracoloniais, gênero, etnobotânica, crise climática, racismo ambiental e direito fundiário. Ela é coordenadora no Instituto de Referência Negra Peregum, organização voltada à educação popular, participa do Grupo de Pesquisa e Ação em Conflitos, Riscos e Impactos Associados a Barragens (CRIAB-Unicamp) e de projetos de pesquisa nacionais e internacionais, como o PHOENIX/FÊNIX – Mobilidade Humana, Desafios Globais e Resiliência em uma Era de Stress Social (financiado no Brasil pela Fapesp). Ela também é pesquisadora convidada do projeto “Narrativas sobre a biodiversidade: as vozes e os olhares de quilombos da Mata Atlântica e do Cerrado sobre a diversidade de plantas e sua conservação, em coprodução”, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (Chamada Biota-Fapesp: Transformação).
Estendendo seus laços com a cultura afro-brasileira de Campinas, pertence também à Comunidade Jongo Dito Ribeiro, reunida em torno da Casa de Cultura Fazenda Roseira. Essas e outras reflexões estão registradas em entrevistas à Fundação Tide Setubal, ao programa O Tempo Virou, do canal Alma Preta Jornalismo, e em depoimento da série História de vida: “O quilombo está onde estou”, do Museu da Pessoa. A força das mulheres quilombolas em sua criação pessoal e também no sistema produtivo das comunidades é outro ponto recorrente nas memórias de Maíra Rodrigues. Sua trajetória integrativa, dentro e fora da universidade, potencializa a ciência e sociedade que queremos, reforçando perspectivas de gênero interseccionais na construção de um mundo diverso e equânime.

Sobre a tese
Autora: Maíra Rodrigues da Silva
Título: Avaliação da contaminação ambiental por Elementos Potencialmente Tóxicos presentes na bacia do Rio Paraopeba-MG
Orientador: Prof. Dr. Jefferson de Lima Picanço
Doutorado em Geociências (2020-2026) com bolsa CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior
Instituto de Geociências (IG) da Universidade Estadual de Campinas
Corientadoras:
Profa. Dra. Marta Silveiro Guilherme Pires,
Dra. Mariana Silveira Guerra Moura e Silva
Dra. Jerusa Schneider
Publicação relacionada
SILVA, Maíra Rodrigues da; SCHNEIDER, Jerusa; PICANÇO, Jefferson de Lima. Toxic element contamination from tailings dam failure disrupts seedling emergence dynamics and soil seed bank resilience in riparian ecosystems. Environmental Pollution, v. 392, p. 127633, 1 March 2026. linkinghub.elsevier.com/retrieve/pii/S0269749126000035.
