
O assédio sexual continua sendo uma realidade presente no cotidiano das universidades, resultado de questões estruturais da sociedade e que têm afetando de forma desproporcional mulheres e grupos socialmente vulnerabilizados. Foi a partir dessa constatação que a pesquisadora e professora portuguesa Sofia Neves apresentou os resultados do projeto europeu Uni4Equity, iniciativa internacional voltada ao fortalecimento das respostas institucionais ao assédio sexual no ensino superior.
Partindo da psicologia social crítica, a coordenadora da equipe da Universidade da Maia no projeto trouxe um panorama das pesquisas realizadas em diferentes países europeus e refletiu sobre os obstáculos que ainda dificultam a prevenção, a denúncia e o acolhimento das vítimas. Segundo Sofia Neves, o assédio sexual deve ser compreendido não apenas como uma violação de direitos humanos, mas também como um problema de saúde pública que exige respostas estruturais.
A apresentação ocorreu durante o 3º Seminário do Observatório Caleidoscópio, no dia 22 de outubro de 2025, e está disponível no canal do Youtube do INCT Caleidoscópio.
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Um problema global marcado por desigualdades e relações de poder
O projeto Uni4Equity surgiu a partir da preocupação em compreender como as universidades europeias têm mapeado situações de assédio sexual, que tipo de monitoramento realizam e quais mecanismos possuem para identificar, prevenir e responder a esses casos.
O projeto, financiado pela União Europeia, é coordenado pela Universidade de Alicante, na Espanha, e reúne instituições da Espanha, Portugal, Itália, Bélgica, Polônia e Áustria. A iniciativa busca fortalecer a capacidade das universidades para prevenir, identificar e responder ao assédio sexual, tanto presencial quanto online, além de promover uma cultura institucional baseada na igualdade de gênero e na diversidade.
O estudo adota uma perspectiva de gênero interseccional. Sofia Neves destacou que as mulheres continuam sendo as principais vítimas, mas ressaltou que pessoas LGBTQIAPN+, minorias étnicas, pessoas com deficiência e indivíduos em posições acadêmicas mais precárias também enfrentam riscos elevados.
Segundo a pesquisadora, entre os fatores que favorecem a ocorrência do assédio estão a persistência de culturas institucionais marcadas por hierarquias rígidas e a normalização de comportamentos violentos que muitas vezes não são reconhecidos como violência de gênero. Ela também chamou atenção para a persistente desigualdade de gênero nas posições de liderança universitária, observando que, embora as mulheres sejam maioria em muitos cursos e carreiras acadêmicas, continuam sub-representadas nos cargos de maior poder.
Sofia também abordou a chamada “cultura do silêncio” nas instituições, que dificulta a denúncia e contribui para a impunidade. Muitas vítimas, explicou, não relatam as situações por medo de terem suas experiências desconsideradas ou relativizadas. Há, ainda, medo de represálias, falta de confiança nas instituições e uma evidente dificuldade das pessoas à frente desses espaços institucionais de saberem o que fazer diante de casos de assédio, reflexo da ausência de protocolos de atuação, códigos de boa conduta e canais de denúncia nas instituições.
Baixa taxa de denúncias e a necessidade de fortalecer políticas institucionais
Em estudos anteriores realizados na Europa, mais de 60% das estudantes universitárias relataram ter sofrido pelo menos uma situação de assédio ou violência sexual durante a vida acadêmica. Em outra pesquisa, uma em cada três pessoas entre estudantes e trabalhadores universitários afirmou ter sido vítima de assédio sexual.
O levantamento conduzido pelo projeto Uni4Equity, que utilizou uma metodologia mista, combinando questionários on-line e entrevistas individuais, envolveu 7.563 participantes, entre estudantes, docentes, técnicos administrativos e gestores universitários em diferentes países.
Os dados mostram que entre 26,6% e 43,5% das mulheres relataram ter sido expostas a situações de assédio ou violência sexual. Comentários sexistas, piadas de conotação sexual e observações ofensivas sobre a aparência física apareceram entre as formas mais frequentes de violência.
Apesar dos números expressivos, a maioria das vítimas não formalizou denúncias. Entre as razões apontadas estão dúvidas sobre a gravidade dos episódios, receio das consequências e desconhecimento dos mecanismos institucionais disponíveis. Para Sofia Neves, esse cenário evidencia a importância de ampliar a formação da comunidade acadêmica, fortalecer canais de acolhimento e divulgar os recursos já existentes.
O avanço do assédio online e os desafios para as universidades
Um dos aspectos da pesquisa foi a análise do assédio sexual no ambiente digital. Para Sofia Neves, as universidades precisam compreender que a violência não se limita aos espaços físicos dos campi e que as práticas abusivas têm se expandido para redes sociais, aplicativos de mensagens e outras plataformas online.
O projeto identificou que, embora a incidência do assédio presencial ainda seja superior, o assédio online representa uma preocupação crescente. Entre as situações relatadas estão o envio de imagens pornográficas sem consentimento, comentários sexuais indesejados, perseguições virtuais e ameaças de violência sexual. A pesquisadora destacou ainda o uso cada vez mais frequente de ferramentas de inteligência artificial para a criação de imagens e vídeos falsos com conteúdo sexual, ampliando os riscos para as vítimas e dificultando a responsabilização dos agressores.
Resultados e principais orientações do projeto
Como resultado do Uni4Equity, diversas ações foram implementadas nas universidades participantes, incluindo workshops, campanhas de sensibilização, produção de materiais educativos, divulgação de códigos de conduta e fortalecimento dos canais de denúncia.
Com relação à violência digital, Sofia Neves argumenta que as características específicas exigem respostas próprias. A permanência dos conteúdos na internet, a rapidez de sua disseminação e a dificuldade de identificar autores tornam o enfrentamento mais complexo. Por isso, uma das recomendações do projeto é que as universidades invistam em mecanismos de monitoramento digital, canais acessíveis de denúncia e protocolos específicos para lidar com situações de assédio online.
A pesquisadora defendeu que o prestígio de uma universidade não deve ser medido apenas pela excelência científica, mas também por sua capacidade de enfrentar problemas sociais e garantir ambientes seguros, inclusivos e livres de violência para toda a comunidade acadêmica.
Assim, a pesquisadora reforçou que o combate ao assédio sexual exige compromisso institucional contínuo. Mais do que reagir a casos individuais, é necessário transformar as estruturas que permitem a reprodução das desigualdades e construir uma cultura universitária baseada no respeito, na equidade e na proteção dos direitos de todas as pessoas.
Sobre a pesquisadora
Sofia Neves é natural de Braga, onde reside. É licenciada em Psicologia (1999) e doutora em Psicologia Social (2005) pela Universidade do Minho. É Professora Associada na Universidade da Maia (UMaia) e membro integrado do Centro Interdisciplinar de Estudos de Género da Universidade de Lisboa (CIEG – ISCSP/ULisboa). A sua principal área de interesse científico é a Violência de Gênero, tendo sido reconhecida, em 2013, pelo European Institute for Gender Equality (EIGE), como perita na matéria. É autora de várias publicações científicas e coordenadora de vários projetos de investigação. Coordena o Observatório da Violência no Namoro e o Observatório Nacional do Bullying. Atualmente é Presidente da Associação Plano i.
