
Apesar do crescimento de políticas e mecanismos institucionais para o enfrentamento das violências de gênero nas universidades brasileiras, o acesso à informação ainda pode representa um obstáculo significativo para estudantes e servidoras e servidores que buscam ajuda.
Essa é uma das principais conclusões da pesquisa apresentada pela jornalista e pesquisadora Morgani Guzzo e pelo então estudante de jornalismo Pedro Henrique Ordones Ramos, vinculados ao Observatório Sul-Sudeste do INCT Caleidoscópio. Os resultados foram apresentados durante o 2º Seminário do Observatório Caleidoscópio, no dia 26 de junho de 2025.
O estudo analisou como instituições públicas de ensino superior das regiões Sul e Sudeste divulgam, em seus sites oficiais, informações sobre políticas, serviços de acolhimento e canais de denúncia relacionados à violência de gênero. O foco não foi apenas verificar a existência desses mecanismos, mas entender quão acessíveis e visíveis eles são para quem precisa utilizá-los.
Veja a gravação completa da apresentação no canal do Youtube do INCT Caleidoscópio.
Violência refletem estrutura desigual na ciência
A pesquisa parte de uma abordagem interdisciplinar, ancorada nos estudos feministas, de gênero e na história das mulheres na ciência.
De acordo com a pesquisadora Morgani Guzzo, esta base teórica e contextual ajuda a compreender como as violências (morais, simbólicas, psicológicas e sexuais) afetam a permanência e a trajetória de mulheres e dissidências de gênero ao longo da carreira e não podem ser vistas como episódios isolados.
“Elas se articulam com desigualdades estruturais da ciência, historicamente marcada por padrões androcêntricos, eurocêntricos, brancos, cisheteronormativos e excludentes”, destacou durante a apresentação.
Metodologia do mapeamento e análise dos sites
O levantamento faz parte do trabalho de Iniciação Científica realizado por Pedro Ordones, com orientação de Morgani Guzzo, e foi realizado entre outubro de 2024 e fevereiro de 2025.
Um dos objetivos foi analisar os sites institucionais das universidades como se os pesquisadores fossem usuárias e usuários em busca de ajuda após uma situação de violência. A metodologia adotou uma espécie de “etnografia de tela”, avaliando o percurso necessário para encontrar informações relevantes.
Foram definidos quatro níveis de busca:
- 1º nível: home do site (nenhum clique);
- 2º nível: página acessada ao dar um primeiro clique. Área “Institucional”; “Reitoria” ou em “Pró-reitoria” onde poderia estar vinculado o mecanismo/serviço buscado;
- 3º nível: página interna (dentro do segundo nível), ou seja, quando foi preciso um segundo clique para encontrar as políticas ou mecanismos;
- Busca externa, via Google: quando a informação não era encontrada no site oficial; ou para complementar as informações. Os dados foram usados para analisar se existia o mecanismo, mas não era encontrado facilmente no site.
Após a coleta de dados, Pedro classificou as instituições de ensino superior em três grupos:
- As que possuem mecanismos e disponibilizam informações acessíveis no site;
- As que têm mecanismos, mas não foram facilmente encontrados na busca no site, exigindo busca externa;
- As que não apresentaram mecanismos identificáveis nem no site nem em buscas externas.
Políticas existem, mas nem sempre são visíveis
O estudo identificou que a maioria das instituições analisadas possui algum tipo de mecanismo de enfrentamento à violência de gênero. No entanto, apenas 23 universidades, sendo 13 no Sul e 10 no Sudeste, foram classificadas como exemplos de boas práticas de comunicação, por disponibilizarem informações de forma fácil e acessível.
Nas demais, mesmo quando políticas e serviços existem, eles ficam “escondidos” atrás de muitos cliques ou fora dos sites institucionais, o que pode desestimular denúncias ou impedir que as pessoas que necessitam busquem apoio.
“Quem sofre violência geralmente não quer ou não consegue passar por um percurso longo e confuso para encontrar ajuda”, explicou Pedro Ordones.
Informação pode ser barreira para combate à violência
A pesquisa dialoga com outros estudos latino-americanos e recorda a aprovação de legislações recentes, como a Lei nº 14.540/2023, que estabelece a obrigatoriedade de divulgação de canais de denúncia e acolhimento no âmbito da administração pública.
Para Morgani Guzzo, não basta criar políticas, é fundamental garantir que elas sejam conhecidas pela comunidade acadêmica. A falta de informação pode ser uma barreira para o combate à violência de gênero.
“Os sites institucionais são, muitas vezes, o primeiro e único ponto de contato entre a universidade e quem precisa de orientação”, destacou. “Transparência, acessibilidade e clareza da informação devem ser vistas como parte integrante das estratégias de enfrentamento às violências”.
Outras ações vinculadas ao Observatório Caleidoscópio
Além do mapeamento, o projeto integra uma série de ações do Observatório Sul-Sudeste do INCT Caleidoscópio, como entrevistas com pesquisadoras, produção de podcasts e materiais de divulgação científica voltados à circulação de boas práticas entre as instituições.
Os resultados reforçam a importância de pensar a universidade não apenas como espaço de produção de conhecimento, mas também como ambiente de responsabilidade institucional, comprometido com a prevenção das violências e com a garantia de direitos.
Sobre a pesquisadora e o pesquisador
Morgani Guzzo é pesquisadora de pós-doutorado junto ao INCT Caleidoscópio – Instituto de Estudos Avançados em Iniquidades, Desigualdades e Violências de Gênero e Sexualidade e suas Múltiplas Insurgências, com bolsa CNPq.
É doutora em Ciências Humanas pelo Programa de Pós-graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas da Universidade Federal de Santa Catarina (PPGICH/UFSC), mestre em Letras pela Universidade Estadual do Centro Oeste (Unicentro-PR), e graduada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela mesma Universidade (2010).
Integra o Laboratório de Estudos de Gênero e História (LEGH/UFSC), o Grupo de Pesquisa Interdisciplinar em Gênero, Raça e Sexualidades (GIGRAS/UFFS) e a Red Nacional de Investigación en los Estudios Socioculturales de las Emociones (RENISCE – México). Desenvolve estudos nas áreas de estudos de gênero, feminismos, epistemologias feministas e decoloniais, afetos e emoções, movimentos sociais, comunicação e jornalismo.
Pedro Henrique Ordones Ramos é formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (2025). Atuou, sob orientação de Morgani Guzzo, como bolsista de Iniciação Científica no período de abril de 2024 a março de 2025. Entre as atividades desempenhadas, auxiliou na produção de matérias para o site do Observatório Caleidoscópio e realizou pesquisa intitulada: “Mapeamento e disposição das informações sobre os equipamentos e serviços de acolhimento de situações de violência de gênero em instituições de ensino superior do Sul e do Sudeste brasileiros”.
