
Criado em 1970, o curso de Oceanologia na Universidade Federal do Rio Grande (FURG/RS) formou 9 estudantes, sendo 4 mulheres. Era a primeira turma do primeiro curso na área no Brasil. Com representação significativa, elas compuseram o maior número total de formados até 2010. Hoje, o Brasil conta com 14 cursos de graduação.
No entanto, a presença em números perde a representatividade quando se observa, entre outros recortes, o acesso a bolsas na carreira científica: entre 1951 e 1972, apenas 25 mulheres receberam outorgas do CNPq, em um total de 100.
É a partir desse contraste que, ao olhar de forma direcionada para a desigualdade de gênero, Rozane Valente Marins, professora titular da Universidade Federal do Ceará, expõe dados, dilemas e conquistas que permeiam a atuação das mulheres brasileiras nas carreiras da Oceanografia.
O estudo se insere em um contexto de atuação global pela Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável (2021-2030), ou, simplesmente, Década do Oceano, ainda que o Brasil esteja longe de atingir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável previstos pela ONU.
A pesquisadora, que integra o Instituto de Ciências do Mar (Labomar) e faz parte do INCT Transferência de Materiais Continente-Oceano (UFC/CNPq), afirma em apresentação no 3º Seminário do Observatório Caleidoscópio: “finalmente a humanidade se deu conta da importância do oceano para a existência da vida no planeta terra”.
Assista à apresentação completa, disponível no canal do Youtube do INCT Caleidoscópio.
Obstáculos na carreira e nos cargos de poder
Segundo Rozane Marins, o processo de exclusão das mulheres conforme avançam aos espaços mais altos no desenvolvimento científico, denominado “efeito tesoura”, é uma realidade também na Oceanografia. As mulheres são maioria na graduação, mas a presença do grupo diminui progressivamente conforme sobem os níveis, chegando à representação nula nos cargos políticos mais altos. Um exemplo marcante se observa na composição do Comitê de Oceanografia do CNPq, atualmente sem nenhuma mulher.
O mesmo ocorre com relação às bolsas. Mesmo com o aumento no percentual ao longo do tempo, a professora demonstra que as mulheres são menos de 30% do número total de contemplados. Para ela, é nesse campo que estão os maiores desafios enfrentados: “falta reconhecimento, há desigualdade de gênero, há etarismo, há barreiras institucionais”.
A realidade não é diferente no perfil do magistério superior, em que poucas mulheres atuam na docência em meio a dezenas de homens. “A presença feminina cresce em número a cada década, mas muito lentamente, e não há reflexo nos percentuais”, afirma.
Essa exclusão fica evidente nos cursos oriundos de Institutos de Geociências, a exemplo das Universidades Federais da Bahia e do Pará. Entre as poucas universidades que possuem equidade, estão as federais do Amazonas e de Pernambuco e a estadual do Rio de Janeiro, únicas em que há maioria de mulheres nos departamentos.
Os protagonismos e o combate à desigualdade
Ainda que se aproxime das ciências biológicas na natureza do ofício, os números mostram um perfil masculinizado, o que aproxima a Oceanografia à realidade das áreas STEAM (sigla em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática). Segundo a pesquisadora, mulheres e outras minorias sofrem exclusão sistemática e lidam com diversos obstáculos, como o preconceito e a discriminação, para construir suas carreiras.
No entanto, há mulheres de enorme destaque e expoentes célebres nas ciências do mar, como Marta Vannucci, Aida Maria Eskinazi e Tereza Cristina Gesteira.
A pesquisadora apresenta, ainda, a trajetória de Yocie Yoneshigue-Valentin, pioneira na coordenação do INCT Mar e Antártica, que recebeu a primeira condecoração do prêmio Marta Vanucci e a 7ª edição do Pioneiras da Ciência no Brasil (CNPq). Yocie também nomeia a alga calcária formadora de rodolito, “Sporolithon yoneshigueae”, espécie de grande importância para o ciclo do carbono e para a acidificação do oceano. A oceanógrafa foi pioneira no uso medicinal de algas marinhas e, com mais de 70 anos, participou de missão científica na Antártica.
Iniciativas coletivas também têm se mostrado fundamentais para caminhar na contramão da desigualdade, tais como os movimentos Liga das Mulheres pelo Oceano e a Parent in Science.
Entre as pautas defendidas, Rozane destaca a defesa da adição do tempo de licença maternidade ao Currículo Lattes, a suspensão da avaliação nesse período e a elaboração de políticas públicas para a retomada da carreira. Além disso, são medidas fundamentais o apoio a grupos minoritários, a constância de editais de valorização das mulheres cientistas, a exigência de percentuais em instituições privadas e as políticas de cotas para garantir representatividade em conselhos, comitês, seleções, bancas de avaliação e de seleção de RH no serviço público.
Em defesa de um futuro azul e igualitário
Ao olhar para as perspectivas futuras em meio à Década do Oceano, Marins reforça que “as mulheres das ciências do mar são essenciais para a preservação dos oceanos e para o desenvolvimento sustentável”. Esse papel se mostra não apenas nos espaços de prestígio acadêmico, em que elas de fato fazem a diferença no debate, mas também na esfera pública. Nas palavras da professora, “o legado das pioneiras inspira o futuro: mais mulheres, mais ciência e um oceano de possibilidades”.
É a partir dessa visão de avanço e reversão de danos que se revela a importância da paridade de gênero para a Oceanografia, uma vez que são as mulheres as principais responsáveis por fomentar a economia azul, bem como as principais afetadas por ela. Assim, em prol de um oceano “resiliente aos impactos, acessível a todos, previsível dos desastres e mudanças e limpo”, a pesquisadora reafirma o seu apoio e defesa ao lugar das oceanógrafas no centro dessa temática, reconhecendo que “o mar é de todas nós”.
Sobre a pesquisadora
Rozane Valente Marins é professora titular da Universidade Federal do Ceará, integra o Instituto de Ciências do Mar (Labomar) e faz parte do INCT Transferência de Materiais Continente-Oceano (UFC/CNPq). Possui graduação em Química (1982), mestrado em Geociências/Geoquímica (1988) e doutorado em Geociências/Geoquímica (1998) pela Universidade Federal Fluminense (UFF). É sócia efetiva da Sociedade Brasileira de Química – Regional do Ceará – e membro do núcleo docente estruturante do curso de Oceanografia da Universidade Federal do Ceará. Tem experiência na área de Oceanografia, com ênfase em Oceanografia Química, atuando principalmente nos seguintes temas: estuários do semiárido, mercúrio e outros metais-traço, geoquímica do fósforo e biogeoquimia do carbono.
