Por Morgani Guzzo

Pesquisadoras do Observatório Sul-Sudeste do INCT Caleidoscópio coordenam Simpósios Temáticos no In[ter]disciplinadæs – Congreso Latinoamericano de Estudios Feministas del Sur, que acontecerá na Universidad de la Republica de Uruguay, em Montevideo, entre os dias 18 e 21 de novembro de 2025.
As inscrições para envio de resumos para apresentação de trabalhos nos Simpósios Temáticos (STs) estão abertas e vão até o dia 11 de maio de 2025. As regras para o envio de resumos podem ser acessadas pelo link: https://interdisciplinadascongreso.uy/convocatoria-a-resumenes-de-ponencias/.
Os STs estão divididos entre os seguintes eixos temáticos: Poder, Patriarcado, Política; Ativismos, Memória Feminista e Feminismos do Sul; Corpos, Sexualidades e Reprodução; Ofensivas Antigênero; Violência de Gênero; Arte; Informação e Comunicação; Meio Ambiente, Territórios e Urbanismo; Economia, Trabalho e Cuidados; e Ciência e Tecnologia.
Os três STs coordenados por Joana Maria Pedro (UFSC), Morgani Guzzo (UFSC) e Lídia Maria Vianna Possas (Unesp), pesquisadoras ligadas ao Observatório Sul-Sudeste do INCT Caleidsocópio, junto com pesquisadoras de países latino-americanos como Argentina, Uruguai e México, tratam de temas como mulheres na política, violências de gênero e resistências nos meios digitais e movimentos de mulheres e resistência ao patriarcado e ao colonialismo na América Latina.
Para facilitar a leitura, traduzimos os resumos dos Simpósios para o português. A versão original (em espanhol) e mais informações sobre o evento podem ser acessados no site: https://interdisciplinadascongreso.uy/.
Mulheres eleitas na América Latina: desafios e avanços (Mujeres electas en América Latina: retos y avances)
A eleição de mulheres para cargos legislativos e executivos na América Latina tem sido uma preocupação para organismos internacionais, ativistas feministas e partidos políticos de diferentes orientações ideológicas. A adoção de cotas para garantir a participação de mulheres em eleições, a busca por leis que incentivem candidaturas, a preocupação com o financiamento das campanhas, a existência de listas fechadas ou abertas, a violência política de gênero (ALBAINE, 2016) têm motivado pesquisas e políticas públicas. Os movimentos de mulheres e feministas latino-americanos têm buscado formas de aumentar o número de candidatas e de mulheres em cargos de poder acessados por meio de eleições em diferentes países.
As pesquisas têm destacado a importância da presença de mulheres em posições de poder para a democracia. Por outro lado, também se discute a diferença entre uma política de presença e uma política de ideias (PHILLIPS, 1995), questionando se basta ser mulher para que sejam propostas e implementadas políticas públicas voltadas às mulheres. Nesse contexto, as expressões políticas desenvolvidas na região durante as primeiras décadas do século XXI geraram discursos e práticas que desafiam e reconfiguram os sentidos tradicionais atribuídos à participação das mulheres na esfera pública (BARROS; MARTÍNEZ PRADO, 2023). Essas transformações não apenas questionaram concepções que associam a presença feminina na política a uma representação automática dos interesses de gênero, mas também evidenciaram as tensões entre agendas progressistas e conservadoras em relação à igualdade de gênero.
Em particular, no exercício de cargos legislativos e executivos, essas dinâmicas revelaram a diversidade de posturas e prioridades que as mulheres no poder podem assumir, desde aquelas alinhadas com projetos de emancipação até outras que reforçam narrativas tradicionais ou contrárias aos direitos das mulheres (TORRICELLA, 2024). Os estudos demonstraram que as questões de raça, etnia e sexualidade exercem influência, tornando o enfoque interseccional (CRENSHAW, 2002) essencial para analisar essas questões. Nesta proposta, consideramos mulheres as pessoas que se identificam dessa forma.
Para este Simpósio Temático, damos as boas-vindas a pesquisas que enfoquem a eleição de mulheres para cargos legislativos e executivos em diferentes níveis de poder, assim como estudos comparativos entre diferentes países da América Latina. Também são bem-vindos estudos que trabalhem com dados eleitorais, bem como aqueles que investiguem as trajetórias das mulheres na política, métodos de campanha, financiamento eleitoral, formas de utilizar o gênero como benefício político e pesquisas focadas na análise de discursos políticos sobre a participação das mulheres na cena pública.
Coordenadoras:
- Joana Maria Pedro – Universidade Federal de Santa Catarina – Brasil
- Valeria A. Caruso – Instituto Interdisciplinario de Estudios de Género, Facultad de Filosofía y Letras, Universidad de Buenos Aires – Argentina
- Mercedes Barros – Instituto de Investigaciones en Diversidad Cultural y Procesos de Cambio (CONICET) – Universidad Nacional de Río Negro – Argentina
Agendas antigênero, discursos neoconservadores e resistências feministas em redes sociais e meios digitais (Agendas antigénero, discursos neoconservadores y resistencias feministas en redes sociales y medios digitales)
Na última década, diversas pesquisas mostram a presença de grupos antidireitos e neoconservadores no debate público em diferentes países da América Latina. Esses grupos utilizam discursos de ódio, discriminatórios e violentos para difundir ideias e valores contrários à igualdade de gênero, disciplinar e silenciar as vozes que defendem os direitos das mulheres e das dissidências, além de impulsionar uma agenda reativa contra os feminismos e os movimentos de direitos humanos, reunidos sob as denominações de “ideologia de gênero” e “agenda woke”. Embora esses grupos e discursos não sejam um fenômeno novo, sua expansão e consolidação na região representam uma mudança de escala coordenada e sistemática, incluindo formas interseccionais de discursos discriminatórios em reação aos avanços feministas na região.
Nessas agendas antigênero, o neoconservadorismo e a moral tradicional encontram novos aliados e estratégias. Um exemplo disso são os discursos que pregam o retorno a modelos tradicionais de ser mulher, de maternidade e de cuidados, semelhantes aos que, no Norte Global, enfatizam fenômenos como o movimento das “donas de casa tradicionais” ou “tradwives”, promovido por influenciadoras que recomendam estilos de vida “naturais”, supostamente necessários para recuperar a saúde, o bem-estar e a harmonia. Esses fenômenos estão diretamente relacionados à expansão das redes sociais e às novas formas do capitalismo, que promovem o empreendedorismo individual e outras formas de subjetivação conectadas a desejos aspiracionais de classe, status, segurança ou proteção, baseadas no modelo sexista tradicional e na apelação a uma suposta “natureza” sagrada e inquestionável.
Por outro lado, as redes sociais e outras plataformas digitais também têm sido utilizadas de forma criativa por movimentos sociais, coletivos, organizações feministas, mídias alternativas e espaços acadêmicos para promover encontros e debates, convocar mobilizações, fortalecer e criar redes de apoio e solidariedade em defesa da ampliação e do respeito aos direitos das mulheres e das pessoas LGBTIQ+.
Com base nesse breve panorama, convidamos pesquisadoras(es), docentes, ativistas e profissionais a submeter propostas que problematizem e reflitam sobre as formas de produção, reprodução e circulação de discursos misóginos, antifeministas e neoconservadores que promovem diferentes formas de violência de gênero em espaços de interação na Internet (redes sociais e outras plataformas virtuais), analisando seus alcances e impactos na região. Quais audiências esses perfis nas redes sociais conseguem mobilizar? A que tipos de recursos imaginários e materiais eles recorrem? Quais desafios representam para o movimento feminista?
Incentivamos o envio de propostas que tragam contribuições interdisciplinares, sejam ensaísticas ou baseadas em pesquisas empíricas, considerando essas questões a partir de perspectivas feministas e de gênero interseccionais. Também nos interessam propostas que abordem formas de contestação, resistência e outros usos afirmativos das redes e mídias digitais para a intervenção pública dos movimentos feministas e de outras organizações sociais que lutam contra a violência de gênero e contra as pessoas LGBTIQ+ na região. Além disso, são bem-vindas propostas que desenvolvam recomendações voltadas a políticas públicas e/ou sugestões formativas e educativas.
Coordenadoras:
- Claudia Bacci – Instituto de Estudios de América Latina y el Caribe, Universidad de Buenos Aires – Argentina
- María Marta Herrera – IdHICS/Cinig – FaHCE- UNLP – Argentina
- Morgani Guzzo – Universidade Federal de Santa Catarina – Brasil
- Nayla Luz Vacarezza – Instituto de Estudios de América Latina y el Caribe, Universidad de Buenos Aires – Argentina
- Silvana Darré Otero – FLACSO Uruguay – Uruguay
Movimentos de Mulheres e Resistência na América Latina: enfrentando as normas patriarcais e a colonialidade no mundo contemporâneo (Movimientos de Mujeres y Resistencia en América Latina: enfrentando las normas patriarcales y la colonialidad en el mundo contemporáneo)
A proposta deste Simpósio é sensível ao movimento de mulheres, que tem sido protagonista na resistência à ascensão da extrema direita em setores conservadores da sociedade e dos poderes políticos institucionalizados, liderando a luta contra as opressões estruturais e os mecanismos históricos de reprodução das desigualdades na América Latina. Nosso objetivo é reunir trabalhos que abordem as formas como as feministas — acadêmicas, ativistas, profissionais, docentes — têm articulado agendas antiviolência, antirracistas, anticapitalistas, abolicionistas penais, anticapacitistas e antifascistas, influenciando o debate sobre as políticas de enfrentamento às normas patriarcais, misóginas e heteronormativas/sexistas, que encontram barreiras diante de posições fundamentalistas e negacionistas que legitimam estruturas de segregação.
As ações protofascistas dos governos eleitos e suas conexões político-ideológicas interceptam as conquistas feministas e o processo civilizatório em curso. Esperamos debater como a interseccionalidade se impõe e como a ação política, que permeia a vida cotidiana — seja por questões de cor, gênero, sexualidade, classe social, origem ou moradia —, é acentuada pela repressão e exploração.
Coordenadoras:
- Lidia Possas – Laboratorio Interdisciplinar de Estudios de Género-Universidad Estadual Paulista – Brasil
- Flor de María Gamboa Solís – Universidad Michoacana de San Nicolás de Hidalgo – México
Serviço:
O quê: In[ter]disciplinadæs – Congreso Latinoamericano de Estudios Feministas del Sur
Local: Universidad de la Republica de Uruguay – Montevideo, Uruguay
Prazo para envio de resumos: 11 de maio de 2025
Site: https://interdisciplinadascongreso.uy/
Referências citadas no texto:
ALBAINE, Laura. Paridad de género y violencia política en Bolivia, Costa Rica y Ecuador. Un análisis testimonial. Ciência Política, 11.21, 2016, pp. 335-362.
BARROS, Mercedes y MARTÍNEZ PRADO, Natalia. Feminism and populism with no guarantee. Etica & Politica/Ethics & Politics, XXV, 2, 2023, pp. 249-267.
CRENSHAW, Kimberlé. Documento para o encontro de especialistas em aspectos da discriminação racial relativos ao gênero. Revista Estudos Feministas [online], vol. 10, n.1, 2002.
PHILLIPS, Anne. De uma política de ideias a uma política de presença? Revista Estudos Feministas, ano 9, 2001, pp. 268-290.
TORRICELLA, Andrea. La reacción cultural y la cuestión de género. In. GRIMSON, A. (Comp.) Desquiciados, Buenos Aires, Siglo XXI, 2024.